segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

VIOLÊNCIA NA ESCOLA: OLHARES SOBRE A HOMOFOBIA PRESENTE NO PROJOVEM URBANO DA ESCOLA ESTADUAL DE ENSINO FUNDAMENTAL PEDRO TARGINO


VIOLÊNCIA NA ESCOLA: OLHARES SOBRE A HOMOFOBIA PRESENTE NO PROJOVEM URBANO DA ESCOLA ESTADUAL DE ENSINO FUNDAMENTAL PEDRO TARGINO

 


José Edvaldo Pereira dos Santos[1]
Pós-graduando lato sensu em Gênero e Diversidade na Escola - UFPB

Renildo Lúcio de Moraes[2]
Professor orientador – GDE/NIPAM/UFPB

 

RESUMO                   

O presente trabalho coloca em debate a problemática da violência na escola, com foco na homofobia e sua possível causa e consequência na vida dos jovens participantes do estudo. Tem como objetivo analisar as expressões da violência na escola e os casos de homofobia que afrentam meninas e meninos no ambiente escolar. Realizamos pesquisa qualitativa com a utilização da observação, e entrevista semi estruturada em sala de aula com discentes do Projovem Urbano da Escola Estadual de Ensino Fundamental Pedro Targino da cidade de Tacima/PB. Os achados da pesquisa sinalizam que a cultura heteronormativa está presente no ambiente escolar e todas as expressões que fogem deste padrão será negada, por isso muitos alunos afirmam que foram vitimas da homofobia ou praticaram atos homofóbicos com outros alunos.


Palavras-Chave: Gênero, Violência na escola, Homofobia.








1 INTRODUÇÃO

A escola é um ambiente no qual os indivíduos interagem de varias formas, sendo assim um ambiente multicultural no qual estão inseridos diversas personalidades e vários estereótipos, muitas vezes por estas razões, as diferenças tem transformado o ambiente escolar em um ambiente propício as varias formas de violência e preconceito.
Nos últimos dias décadas a violência tem invadido a escola, e se tornou objeto de preocupação dos profissionais da educação, gestões públicos e pesquisados, que nos últimos 10 anos tem aumentado os estudos para compreender o fenômeno da violência na escola.  
As expressões da violência presente na escola se manifestam nas formas: físicas, psicológicas e simbólicas, têm causado em diversos indivíduos consequências desastrosas, pois muitos desses têm deixado inclusive de frequentar a escola. Diante a esta realidade, a escola torna-se muitas vezes um ambiente de exclusão e não de inclusão, é importantíssimo identificar, perceber e avaliar de que forma tudo isso acontece.
O preconceito e a discriminação são pontos marcantes no aumento da violência nas escolas, saber como estes fatores têm contribuído para o aumento da violência nas escolas seria uma boa estratégia para formulação de possíveis intervenções que promovam a cultura pela paz, equidade e respeito.
O tipo de discriminação/preconceito que mais tem se destacado no ambiente escolar é a homofobia, Segundo (SCOTT, 1995) ao entender gênero como uma forma de dar significado às diferenças sexuais, a homofobia tem uma estreita ligação com o conceito de gênero, pois a não aceitação do/a homossexual está baseada na recusa do padrão de gênero imposto socialmente. Nesta perspectiva as pessoas são vitima não só de discriminação, mas também de agressões físicas e verbais.
Segundo estudo de CASTRO; ABRAMOVAY; SILVA, 2004, são grandes os casos de rejeição à homossexualidade, apesar destes números serem variáveis por regiões, ainda é um número preocupante, pois estes também estão relacionados quanto ao nível de escolaridade dos entrevistados. Assim, a escola é uma das mais importantes formas de combater e evitar diversas formas de preconceito e discriminação, tornando-se um campo rico de conhecimento quanto ao tema proposto no trabalho.
Segundo Junqueira (2007, p. 61), a escola é um lugar em que os jovens LGBTs enfrentam discriminação por parte dos colegas, professores, servidores entre outros que fazem parte da comunidade escolar. Nesta perspectiva este trabalho busca compreender quantificar e relacionar os motivos geradores destas formas de discriminação e violência psicológica e física no ambiente escolar. É importante destacar que os jovens sofrem discriminação em diversos espaços ao qual estão inseridos, mas na escola este ato tem se tornado cada vez mais comum.
Diante dos expostos, o interesse de enveredar na investigação sobre o fenômeno da violência na escola, com foco nas expressões da homofobia, tem dois momentos: No primeiro se deu através da atuação como professor do Projovem Urbano da Escola Estadual de Ensino Fundamental Pedro Targino da cidade de Tacima/PB, no período de junho até agosto de 2015. No segundo foi na disciplina de metodologia cientifica do Curso de Especialização em Gênero e Diversidade na Escola NIPAM UFPB, que define como condicionalidade de realizar um pesquisa e elaborar um TCC no formato de artigo cientifico.
Nesta direção construímos um projeto de pesquisa no intuito de compreender os motivadores da violência nas escolas. Este assunto é de suma importância, pois estas formas de violência esta relacionada a diversos fatores discriminatórios e preconceituosos que merecem bastante atenção. A violência nas escolas tem aumentado e como a homofobia é considerada uma das formas de preconceito que mais tem crescido atualmente. Portanto, as pessoas que não se adéquam aos padrões pré-estabelecidos pela sociedade sofrem varias formas de violência. Neste sentido o estudo tem objetivo de analisar as expressões da violência na escola e os casos de homofobia que enfrentam meninas e meninos no ambiente escolar.
Este trabalho está dividido em duas partes, além da introdução, da metodologia, das considerações finais e a bibliografia. Na primeira parte trata de fundamentação conceitual sobre Gênero, Violência na escola e Homofobia, a fim de compreender seus arranjos práticos no cotidiano escolar. A segunda parte aborda e analisa os dados da pesquisa sobre as expressões da homofobia que ocorrem na Escola Estadual de Ensino Fundamental Pedro Targino, e apresentamos os achados da pesquisa na direção de compreender as causas e consequências e impacto desta problemática no fenômeno da evasão escolar.


2 ELO CONCEITUAL: VIOLÊNCIA NA ESCOLA, GÊNERO E HOMOFOBIA

A violência nas escolas tem sido uma preocupação para a comunidade escolar, pois esta vem atingindo as instituições de ensino de diversas formas sejam quanto ao ensino e aprendizagem sejam nas relações interpessoais, além disso, toda comunidade escolar é atingida, destruindo muitas vezes a real finalidade da escola. Para compreender o fenômeno da violência na escola e link com relações de gênero e homofobia iremos traça notas conceituais sobre gênero, homofobia e violência na escola.
As relações entre homens e mulheres tem sido uma forma de padronização e constituição da sociedade, em suas relações nos diversos ambientes sociais, estes por sua vez têm gerado conflitos e desigualdades, como afirma Joan Scott (1995, p. 21), “gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é uma forma primeira de significar as relações de poder”.
A sociedade partindo destes princípios tem colocado homens e mulheres em lugares e padrões que não levam em considerações apenas as questões biológicas, mas constituídas através das relações sociais, segundo Santos e Buarque (2003, p. 1), “o conceito de gênero nos permite compreender que as desigualdades econômicas, políticas e sociais existentes entre homens e mulheres não são, simplesmente, produtos de diferenças biológicas”.
Portanto, a escola como instituição social não seria diferente, estas formas e padrões constituídos e formalizados em sociedade que diverge homens e mulheres, além de outros gêneros, são reproduzidas nas escolas de diversas formas gerando diferenças, distinções e desigualdade, conforme Louro (1997):

Tal “naturalidade” tão fortemente construída talvez nos impeça de notar que, no interior das atuais escolas, onde convivem meninos e meninas, rapazes e moças, eles e elas se movimentem, circulem e se agrupem de formas distintas. Observamos, então, que eles parecem “precisar” de mais espaço do que elas, parecem preferir “naturalmente” as atividades ao ar livre. Registramos a tendência nos meninos de “invadir” os espaços das meninas, de interromper suas brincadeiras. E, usualmente, consideramos tudo isso de algum modo inscrito na “ordem das coisas” (...) Mas as divisões de raça, classe, etnia, sexualidade e gênero estão, sem dúvida, implicadas nessas construções e é somente na história dessas divisões que podemos encontrar uma explicação para a lógica que as regem (LOURO, 1997, p.60).

Deparamo-nos diariamente com situações padronizadas pela sociedade que modelam homens e mulheres e como estes devem agir, mas na verdade isto nada tem haver com as diferenças naturais e biológicas, são meros conceitos que hierarquizam um gênero e menospreza o outro, em outras palavras, tornam o masculino superior aos demais gêneros identificados em nossa sociedade atual.
Com estas características supracitadas do conceito e padronização de gênero, há uma valorização de um determinado grupo e a desvalorização de outros, gerando muitas vezes o preconceito e a discriminação entre estes grupos, além de diversas formas de violência. Por ser um lugar ao qual estão reunidas diversas pessoas e consequentemente diversos gêneros, a escola tem sido um ambiente comum a atos de violência de gênero.
Diante está naturalidade a escola tem reproduzido cada vez mais a diferença de gênero, assim é necessário que os profissionais da educação estejam atentos na busca de coibir as praticas de desigualdade para que o indivíduo não sofra qualquer tipo de discriminação devido seu estilo de vestir-se, falar e etc. Ressalta-se ainda a necessidade do individuo aprender conviver com as diferenças respeitando o próximo e não o ignorando e o desrespeitando nem muito menos o colocando em situações que pareçam normais, mas que na verdade só geram preconceito e discriminação.
Segundo os autores Campos (2009) e AUAD (2006), a escola é um ambiente social que sofre o processo de socialização de gênero, é nela que o individuo aprende códigos símbolos construídos socialmente que distinguem homens e mulheres, este fato tem despertado profissionais da educação e pesquisadores (AMORIN 2009), no qual através destes estudos tem comprovado diversos tipos de violência principalmente quanto à diversidade de gênero no ambiente escolar.
A escola como espaço de aprendizagem e interação, tem como parâmetro curricular a educação sexual, mas segundo alguns autores como, Ribeiro, Souza e Souza (2004), têm destacado que estes parâmetros têm sido considerados competência apenas dos professores de ciências ou educação física. Neste caso muitas vezes o conhecimento prévio do discente e o conhecimento de mundo ao qual este está inserido não são levados em consideração, sendo apenas o tema explanado de forma científica falando apenas com uma abordagem biológica.
Quando ocorre uma aula na qual o professor fala apenas dos aspectos biológicos, já caracteriza uma exclusão de gênero, pois há uma relação apenas entre masculino e feminino, deixando muitas vezes jovens constrangidos com a situação por não se classificar em nenhuma característica cientifica ou biológica durante aquela aula.
A sociedade é detentora de uma forte resistência as mudanças dos padrões quanto à sexualidade, à escola também inserida neste espaço social tem mantido os mesmos padrões sociais, nas palavras de (FOUCAULT, 1988; BUTLER, 1999; WEEKS, 1999):

Nesse processo, firmou-se um saber sobre a sexualidade em que qualquer expressão da sexualidade que fuja aos padrões heterossexuais e “naturais” é considerada anormal. (FOUCAULT, 1988; BUTLER, 1999; WEEKS, 1999).

As questões de sexualidade têm entrado em conflito com diversas regras morais e éticas da sociedade, (FOUCAULT, 1998), afirma que a sexualidade tem se relacionado com o controle do corpo e da vida das pessoas. Portanto existe na sociedade uma divisão de poder no qual o sexo é levado em consideração, dando força a um e menosprezando outros, na escola isto não é diferente, há um domínio da heteronormatividade como em toda sociedade, aos quais muitos outros gêneros são considerados anormais ou inferiores, (BUTLER, 1999), afirma que a escola tem desenvolvido um trabalho contraditório, pois esta deveria ser um espaço no qual o os indivíduos tivessem a liberdade de questionar a lógica sexual e de gênero.
Na escola o individuo deveria ter a liberdade para construir sua identidade, mas na realidade as pessoas têm sofrido vários tipos de violências devido sua orientação sexual, além disso, a diversidade sexual na escola muitas vezes nem é citada, neste caso o ambiente que deveria formar o verdadeiro cidadão tem atuado de forma mecânica e engessada seguindo os padrões arcaicos ao qual não se valoriza a pessoa e sim suas características físicas, biológicas e posição social.
A sociedade tem imposto em seus conceitos os padrões que definem homens e mulheres, sendo neste levado em consideração os aspectos biológicos como forma de padronização conhecido como gênero masculino e feminino, além disso, a cultura tem definido como deve ser o homem e como deve ser a mulher e ainda sua forma de agir e pensar.
No entanto, vale ressaltar que homens e mulheres são produtos da realidade social e não definidas apenas pelo sexo biológico e suas características físicas, sendo assim, o conceito de gênero tem sido modificado ao longo da historia, tendo seu surgimento através dos movimentos feminista e seu ápice aconteceu através do movimento homossexual e da produção de identidades coletivas.
Diante tantas transformações quanto ao conceito de gênero, varias mudanças tem surgido na sociedade que tem se manifestado de diversas formas, mas isto não deveria classificar as pessoas, pois gera a discriminação e o preconceito, além de não respeitar as diferentes possibilidades da sexualidade.
As manifestações homossexuais têm sofrido as consequências devidas estas mudanças, são ofensas, humilhações, ameaças e inclusive agressões físicas e psicológicas, este tipo de repúdio é conhecido como homofobia. A homofobia conhecida como um preconceito anti-homossexual, são percepções negativas a respeito da homossexualidade, se manifesta através da reprovação de pessoas que não se adéquam a padrões estabelecidos pela sociedade.
A escola como instituição social tem reproduzido cada vez mais os casos de homofobia, segundo, AMORIM, 2009, a violência na escola tem sido destaque na mídia mundial, segundo Rogério Junqueira (2007), o Brasil tem o maior numero de assassinatos contra os homossexuais. Neste sentido a escola brasileira tem reproduzido as influencias sociais, as quais tratam os homossexuais de forma discriminatória e preconceituosa manifestadas de diversas formas e atitudes, as escolas brasileiras tem se preocupado com esta situação e parte em busca de capacitar seus profissionais que em muitos casos se sentem de mãos atadas sem saber o que fazer ou que decisão tomar.
                O preconceito parte do principio da não aceitação de alguns atos, atitudes e até mesmo das pessoas, na escola este fato tem sido um gerador de discriminação e violência, estando estes relacionados na maioria dos casos com as relações de gênero.  A escola como reprodutora da cultura ao qual está inserida, sofre com a naturalização da violência, segundo Candau (2001) isso tem gerado a banalização da violência que gera o medo, a desconfiança, a competitividade, a insegurança e a representação do outro como inimigo.
Segundo Rogério Junqueira (2007), o país é o campeão mundial de assassinatos contra aqueles considerados das sexualidades não-hegemônicas, já que a média brasileira é de um assassinato a cada três dias. A escola age como reprodutora da cultura local, esta por sua vez tem sido um ambiente no qual a violência de gênero também tem acontecido diariamente.
São constantes os casos de discriminação contra os LGBTs no ambiente escolar, caracterizando estes atos como homofobia que de acordo com Borrillo (2001, p. 13), é a atitude hostil que tem como foco homossexualidade, homens ou mulheres e consiste em designar o outro como inferior, contrário ou anormal, de modo que sua diferença o coloca fora do universo comum dos humanos.
A homofobia tem sido uma das formas de preconceito que mais tem se destacado na sociedade moderna, pois esta tem sido expressa facilmente pelas pessoas sem nenhum constrangimento ou preocupação com as possíveis consequências de atos e atitudes que não levam em consideração a pessoa. O mais interessante disso tudo, é que quando se trata de outros tipos de preconceito há todo um receio e uma preocupação, mostrando o quão preocupante é esta situação que vem acontecendo com os homossexuais em diversas esferas da nossa sociedade.
Na escola não seria diferente, a homofobia se manifesta de diversas formas, sejam elas físicas ou verbais e isto tem ocasionado diversas consequências principalmente aos jovens gays e lésbicas como: tentativas de suicídio e a evasão escolar, estes se destacam mais entre as vitimas de violência na escola por estarem mais visíveis.
Muitos jovens permanecem em silêncio, ou seja, tentam esconder sua orientação sexual, neste caso existe o medo de ser recriminado e rejeitado pala sociedade inclusive no ambiente escolar, sendo assim não deixando esse fato de ser uma forma de violência, pois as vitimas deste tipo de violência são reprimidas e impossibilitadas de viverem como pessoas livres com seus direitos e deveres. Os casos de omissões no ambiente escolar também fazem com que estes jovens fiquem invisíveis, pois muitos profissionais da educação preferem não falar sobre o assunto.

Ao não falar a respeito deles e delas, talvez se pretenda ´eliminá-los`, ou, pelo menos, se pretenda evitar que os alunos e as alunas´ normais` os/as conheçam e possam desejá-los/as. Aqui, o silenciamento – a ausência da fala – aparece como uma espécie de garantia da ´norma`. (LOURO, 1997, p. 67-68).

Aparentemente as pessoas preferem ficar em silêncio, é como se o assunto fosse proibido e o pior desta situação é que estes se omitem inclusive quando presenciam situações homofóbicas. A dificuldade para os adolescentes assumirem a sua condição de homossexual tem se tornado cada vez mais difícil, pois a sociedade já tem sua opinião pré-formalizada e inclusive já cria suposições quanto ao que é normal e o que é anormal, segundo Louro (2000);

A escola é, sem dúvida, um dos espaços mais difíceis para que alguém“ assuma” sua condição de homossexual ou bissexual. Com a suposição de que só pode haver um tipo de desejo sexual e que esse tipo – inato a todos – deve ter como alvo um indivíduo do sexo oposto, a escola nega e ignora a homossexualidade (provavelmente nega porque ignora) e, desta forma, oferece poucas oportunidades para que adolescentes ou adultos assumam, sem culpa ou vergonha, seus desejos. O lugar do conhecimento mantém-se, com relação à sexualidade, o lugar do desconhecimento e da ignorância. (LOURO, 2000, p. 30).

Falar sobre sexualidade na escola tem sido um tabu, pois estes temas são considerados desnecessários por muitos professores deixando nossos jovens constrangidos e presos ao medo de expressar seus desejos e vontades, oprimidos pela escola que deveria lhe dá oportunidades de ser um cidadão crítico e consciente e pela sociedade que não lhe dar espaço de viver sua própria vida como todo cidadão.


3 RETRATOS REVELADOS NA PESQUISA FEITA NO PROJOVEM URBANO DA ESCOLA ESTADUAL DE ENSINO FUNDAMENTAL PEDRO TARGINO

             O Projovem Urbano é uma modalidade do Programa Nacional de Inclusão de Jovem (PROJOVEM), é programa vinculado ao Ministério da Educação (MEC) ligado ao governo federal, que é desenvolvido em parceria com os governos estaduais e municipais, direcionado ao jovens de 18 e 29 ano que não concluíram o Ensino Fundamental II, no qual visa a conclusão desta etapa através da modalidade de Ensino da Educação de Jovens e Adultos (EJA). O programa oferece conteúdos nas áreas Linguagem (Portuguesa e Inglesa), Ciências (Humanas e Naturais), códigos (Matemática), integram-se ainda ao programa a qualificação profissional, o desenvolvimento de ações comunitárias e o exercício da cidadania. Os participantes do programa recebem uma bolsa de incentivo ao aluno no valor de R$ 100 reais.
Na realidade da cidade de Tacima/PB, os discentes do Projovem urbano, são jovens que por algum motivo abandonaram a escola, presume-se de fato, que são possíveis vitimas de violência e preconceito na escola, diante destas possibilidades busca-se neste trabalho através da entrevista, identificar e relacionar os casos de violência na escola e suas possíveis consequências, além das causas motivadoras e os possíveis casos de omissão.
             O Projovem urbano teve inicio no dia 01 de junho de 2015, na Escola Estadual de Ensino Fundamental Pedro Targino, localizada na cidade Tacima no estado da Paraíba, possui 185 alunos/as matriculados/as divididos em 5 salas de aulas, e funciona no turno noturno. Muitos destes alunos deixaram de estudar a muito tempo, sendo assim, uma curiosidade os possíveis motivos que os levaram a abandonar a sala de aula.
             Após alguns dias de aula a aproximação entre os alunos e demais membros da comunidade escolar tornam-se inevitáveis, portanto esta aproximação possibilitou conhecer alguns motivos pelos quais os alunos abandonaram a escola, muitos foram vitimas de preconceito e violência tanto psicológica como física.
             Partindo destes principio surge a possibilidade de pesquisar como esta violência ocorreu e ainda acontece nesta escola, para isto se utilizou técnicas de observação, entrevistas e questionário. Nestes questionários os alunos e professores expressaram suas opiniões e percepções quanto ao preconceito, a homofobia e a violência de gênero no ambiente escolar e como elas acontecem e quais suas possíveis causas e consequências.
             A pesquisa foi realizada no Projovem Urbano da Escola Estadual de Ensino Fundamental Pedro Targino, localizada no município de Tacima no estado da Paraíba. Durantes os meses de junho, julho e agosto/2015, com a participação de 30 discentes, sendo 15 jovens do sexo masculino e 15 jovens do sexo feminino. Os discentes foram convidados por fazerem parte de uma comunidade escolar detentora de uma grande diversidade de gêneros, além destes se encaixarem no perfil da pesquisa, estes ainda fazem parte de um grupo que por algum motivo deixou a escola e está tentando recuperar o tempo perdido, neste último caso, muitos inclusive alegam aos professores que foram vitimas de diversas formas de violência na escola.
             A metodologia adotada foi a utilização da entrevista semi-estruturada, pois optamos neste método por facilitar a liberdade dos discentes falar da temática à vontade, isto através de um roteiro dinâmico para que os entrevistados pudessem contribuir de forma espontânea e natural.
              Um fato alarmante mostrou-se neste estudo, onde a grande maioria dos entrevistados afirmaram que deixaram a escola por que foram vítimas de preconceito, o principal deles foi a homofobia. Esse dado é confirmado nos estudos de Dinis, N. F., 2011; Mac na Ghaill, et. al, 1991; Mac na Ghaill,1991.
Para Aquino, 1997; Epstein e Johnson, 2000 a escola é um ambiente que reflete a sociedade. Se a violência faz parte do convívio dos alunos, eles certamente levarão a violência para a escola, porém de um modo diferente, reinventado.
A escola é vista como um importante espaço para o combate contra o crime da homofobia com a implementação de políticas públicas que promovam a saúde de crianças e adolescentes, e a intenção de introduzir a sexualidade na escola fica evidente com a inserção da orientação sexual nos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCNs (BRASIL, 1998), na forma de tema transversal (ALTMANN, 2001; 2003).
As meninas se mostram mais passivas na escola porque já chegam assim na escola, enquanto os meninos se tornam agressivos no ambiente escolar porque já foi ensinado pela família a ser assim CARVALHO (2003).
A entrevista foi composta por 10 perguntas, esta foi realizada com 30 alunos sendo 15 mulheres e 15 homens todos residentes no município de Tacima/PB.
Quando perguntado se os alunos são preconceituosos 36,7 afirmaram que sim, se consideram uma pessoa preconceituosa, 43,3% afirmaram que não se consideram preconceituosas e 20% afirmaram que algumas vezes e em alguns casos se considera preconceituosa. Na sequencia foram questionados para saber se existia homossexuais em suas famílias, 90% disseram que tem sim, enquanto apenas 10% afirmaram que não.
A pesquisa também abordou sobre como era a relação dos alunos com os gays na escola e na família. Eles responderam da seguinte maneira, 46,7% afirmaram não gosta dos gays, 23,3% disseram não ter problema, mas desde que estes fiquem entre eles e 30% responderam não ter problema algum. Também foi feito um questionamento para saber a opinião sobre o casamento gay e as relações conjugais ente os homossexuais como: namoro e paquera. 50% dos alunos disseram que isso é uma falta de vergonha, 23,3% não concorda nem com o casamento nem com qualquer outra forma de relacionamento e 26,7% responderam não ter problema e deixa as pessoas serem felizes.
Os alunos também foram entrevistados sobre como se sentem ao estarem próximos de um gay, 53,3 % responderam se incomodam e preferem sair de perto ou sentar em outro lugar, 20% disseram que evitam falar com eles e 26,7 diz que não tem problema algum. Dando sequência a entrevista, foi perguntado aos alunos se estes já foram vitimas de preconceito ou discriminação, 60% responderam que sim e 40% disseram que não.
Os entrevistados foram questionados sobre qual seria a reação ao ver um gay ser agredido verbalmente ou fisicamente, 33,3% afirmaram ficar na deles, pois declaram não ser problema deles, 33,3% acham desnecessária tal situação, 13,4% dizem que sairiam de perto e 20% afirmam que ficam indignados diante uma situação como esta. Na entrevista os alunos também foram interpelados se estes se consideram pessoas homofóbicas, após uma breve explicação sobre homofobia, 43,3% responderam que sim, 26,7% que não e 30% alegaram depender da situação e do momento.
Durante a entrevista ainda foi perguntado se os gays sofriam preconceito na escola, e o porquê deste preconceito, os alunos responderam de forma unânime que sim, “os gays sofrem preconceito na escola”, mas não souberam responder por que isto acontecia. Na última pergunta os entrevistados responderam sobre como a escola, os funcionários e o corpo docente têm acolhido os homossexuais, 36,7% responderam que a escola recebe bem os homossexuais, 30% afirmaram que a escola já dá liberdade demais aos homossexuais e 33,7% afirmam que os homossexuais sofrem preconceito inclusive dos funcionários e professores.
Analisando os resultados da entrevista realizada com os alunos do Projovem Urbano da Escola Estadual de Ensino Fundamental Pedro Targino, turno noite, observou-se que existe uma certa rejeição aos homossexuais e que muitas vezes  estes são vítimas de preconceito e discriminação.
                   Durante as entrevistas, os entrevistados demonstraram um grande grau de preconceito em relação a gays na família, pois muitos não aceitam esta orientação sexual, as mulheres se mostraram mais aberta a esta realidade, mas os homens chamam inclusive “palavrão” quando toca neste assunto. Outra coisa que chamou atenção foi como eles mesmos sem conhecerem a bíblia, se utilizam dela como argumento, se amparando as questões religiosas.
                Quanto ao casamento gay, muitos dos entrevistados afirmam que só se o filho for morar distante e que nunca traga o “macho” para visitar os pais. Percebe-se muito preconceito e muitos dos entrevistados demonstram características homofóbicas, sendo nas mulheres este último de forma mais amena, porém no ambiente escolar o preconceito de acordo com o relato da maioria dos entrevistados só tem aumentado, pois são poucos os que respeitam o colega dentro e fora da escola.
                   A surpresa surgiu quando um dos entrevistados citou que muitas vezes a discriminação por causa da “opção sexual” segundo ele, começa pelos próprios professores e funcionários, que riem quando ele passa e quando ele fala com as pessoas. A escola tem um papel de combater esta situação e não contribuir. Se têm pessoas que estão colaborando com esta situação, como conseguiremos combater estes inimigos tão cruéis que são o preconceito e a discriminação por orientação sexual e outros fatores no ambiente escolar?
             Os entrevistados responderam de acordo seus conhecimentos prévios e opiniões a todas as perguntas, sendo que um dos temas da entrevista causou um maior impacto, pois tratava da questão de filhos gays; a grande maioria se sentiu desconfortável principalmente os homens, quando interpelado sobre a aceitação de um namorado ou namorada de um filho gay dormir na residência dos pais muitos não aceitariam de forma alguma.
             Portanto, percebe-se nesta entrevista o quão grande é a dificuldade das famílias aceitarem filhos gays, mostrando como nossa sociedade insisti nas tradições sociais passadas de geração a geração, além de mostrar também as dificuldades encontradas por pessoas de orientações sexuais diferentes das instituídas de forma padronizada pela sociedade, esta mostra ainda os conflitos em família e as diversas formas de violência sofridas por estas pessoas que fogem dos padrões sociais.


4  CONSIDERAÇÕES FINAIS

Vale destacar que o jovem faz parte da cultura a qual este está inserido. Sendo assim, este estudo tem demonstrado como o preconceito e a discriminação contra os homossexuais e de uma forma mais abrangente todas as orientações sexuais, têm invadido as nossas escolas ao ponto de muitos alunos preferirem mudar de lugar ao sentar ao lado de um gay ou fazer de conta que não está presenciando um ato de violência contra este.
Além disso, comprova-se ainda neste estudo, a necessidade de capacitação dos nossos profissionais da educação em prol de uma escola democrática que trate todos por igual, ou seja, sem distinção de classe, etnia e orientação sexual.
Durante a realização deste trabalho percebeu ainda como os jovens ainda conhecem muito pouco sobre homofobia, muitos praticam e nem se quer sabe disso, falta orientação, formação e instrução para estes jovens tão carentes de conhecimento sobre este assunto tão real na sociedade, se faz necessário uma educação mais humana e mais justa que trate a realidade e o conteúdo de forma subjetiva, fazendo uma ponte com a realidade e não uma educação puramente cientifica que trata os seres humanos como uma espécie pré-programada pelos seus aspectos físicos.
A escola precisa evoluir e se adaptar as transformações, não que seja uma escola sem regimento, mas que seja capaz de formar o cidadão sem classificá-lo ou taxá-lo como isto ou aquilo e nem muito menos que prolifere os maus costumes e os conceitos desumanos que a sociedade muitas vezes egoísta e hipócrita tem colocado como ético e correto.  

REFERÊNCIAS
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[1]Professor do Projovem Urbano do estado da Paraíba. Graduado em Licenciatura Plena da Língua Portuguesa (UFPB). Graduando em Letras Língua Inglesa (UFPB). E-mail: jedvaldorn@hotmail.com.

[2]Professor orientador Curso de Especialização em Gênero e Diversidade na Escola (NIPAM/UFPB). Mestre em Direitos Humanos, Cidadania e Políticas Públicas/UFPB. Graduado em Serviço Social/UFPB. Especialista em Gestão Pública Municipal/UFPB e Adolescência e Juventude no Mundo Contemporâneo/FAJE. E-mail: renildolmoraes@yahoo.com.br.

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