VIOLÊNCIA NA ESCOLA: OLHARES SOBRE A HOMOFOBIA
PRESENTE NO PROJOVEM URBANO DA ESCOLA ESTADUAL DE ENSINO FUNDAMENTAL PEDRO
TARGINO
Pós-graduando lato sensu em Gênero e
Diversidade na Escola - UFPB
Renildo
Lúcio de Moraes[2]
Professor orientador – GDE/NIPAM/UFPB
RESUMO
O presente trabalho
coloca em debate a problemática da violência na escola, com foco na homofobia e
sua possível causa e consequência na vida dos jovens participantes do estudo.
Tem como objetivo analisar as expressões da violência na escola e os casos de
homofobia que afrentam meninas e meninos no ambiente escolar. Realizamos
pesquisa qualitativa com a utilização da observação, e entrevista semi
estruturada em sala de aula com discentes do Projovem Urbano da Escola Estadual
de Ensino Fundamental Pedro Targino da cidade de Tacima/PB. Os achados da
pesquisa sinalizam que a cultura heteronormativa está presente no ambiente
escolar e todas as expressões que fogem deste padrão será negada, por isso
muitos alunos afirmam que foram vitimas da homofobia ou praticaram atos
homofóbicos com outros alunos.
Palavras-Chave: Gênero,
Violência na escola, Homofobia.
1 INTRODUÇÃO
A
escola é um ambiente no qual os indivíduos interagem de varias formas, sendo
assim um ambiente multicultural no qual estão inseridos diversas personalidades
e vários estereótipos, muitas vezes por estas razões, as diferenças tem
transformado o ambiente escolar em um ambiente propício as varias formas de
violência e preconceito.
Nos
últimos dias décadas a violência tem invadido a escola, e se tornou objeto de
preocupação dos profissionais da educação, gestões públicos e pesquisados, que
nos últimos 10 anos tem aumentado os estudos para compreender o fenômeno da
violência na escola.
As
expressões da violência presente na escola se manifestam nas formas: físicas,
psicológicas e simbólicas, têm causado em diversos indivíduos consequências
desastrosas, pois muitos desses têm deixado inclusive de frequentar a escola.
Diante a esta realidade, a escola torna-se muitas vezes um ambiente de exclusão
e não de inclusão, é importantíssimo identificar, perceber e avaliar de que
forma tudo isso acontece.
O
preconceito e a discriminação são pontos marcantes no aumento da violência nas
escolas, saber como estes fatores têm contribuído para o aumento da violência
nas escolas seria uma boa estratégia para formulação de possíveis intervenções
que promovam a cultura pela paz, equidade e respeito.
O
tipo de discriminação/preconceito que mais tem se destacado no ambiente escolar
é a homofobia, Segundo (SCOTT, 1995) ao entender gênero como uma forma de dar
significado às diferenças sexuais, a homofobia tem uma estreita ligação com o
conceito de gênero, pois a não aceitação do/a homossexual está baseada na
recusa do padrão de gênero imposto socialmente. Nesta perspectiva as pessoas
são vitima não só de discriminação, mas também de agressões físicas e verbais.
Segundo
estudo de CASTRO; ABRAMOVAY; SILVA, 2004, são grandes os casos de rejeição à
homossexualidade, apesar destes números serem variáveis por regiões, ainda é um
número preocupante, pois estes também estão relacionados quanto ao nível de
escolaridade dos entrevistados. Assim, a escola é uma das mais importantes
formas de combater e evitar diversas formas de preconceito e discriminação,
tornando-se um campo rico de conhecimento quanto ao tema proposto no trabalho.
Segundo
Junqueira (2007, p. 61), a escola é um lugar em que os jovens LGBTs enfrentam
discriminação por parte dos colegas, professores, servidores entre outros que
fazem parte da comunidade escolar. Nesta perspectiva este trabalho busca
compreender quantificar e relacionar os motivos geradores destas formas de
discriminação e violência psicológica e física no ambiente escolar. É
importante destacar que os jovens sofrem discriminação em diversos espaços ao
qual estão inseridos, mas na escola este ato tem se tornado cada vez mais
comum.
Diante
dos expostos, o interesse de enveredar na investigação sobre o fenômeno da
violência na escola, com foco nas expressões da homofobia, tem dois momentos:
No primeiro se deu através da atuação como professor do Projovem Urbano da
Escola Estadual de Ensino Fundamental Pedro Targino da cidade de Tacima/PB, no
período de junho até agosto de 2015. No segundo foi na disciplina de
metodologia cientifica do Curso de Especialização em Gênero e Diversidade na
Escola NIPAM UFPB, que define como condicionalidade de realizar um pesquisa e
elaborar um TCC no formato de artigo cientifico.
Nesta
direção construímos um projeto de pesquisa no intuito de compreender os
motivadores da violência nas escolas. Este assunto é de suma importância, pois
estas formas de violência esta relacionada a diversos fatores discriminatórios
e preconceituosos que merecem bastante atenção. A violência nas escolas tem
aumentado e como a homofobia é considerada uma das formas de preconceito que
mais tem crescido atualmente. Portanto, as pessoas que não se adéquam aos
padrões pré-estabelecidos pela sociedade sofrem varias formas de violência. Neste
sentido o estudo tem objetivo de analisar as expressões da violência na escola
e os casos de homofobia que enfrentam meninas e meninos no ambiente escolar.
Este
trabalho está dividido em duas partes, além da introdução, da metodologia, das
considerações finais e a bibliografia. Na primeira parte trata de fundamentação
conceitual sobre Gênero, Violência na escola e Homofobia, a fim de compreender
seus arranjos práticos no cotidiano escolar. A segunda parte aborda e analisa os
dados da pesquisa sobre as expressões da homofobia que ocorrem na Escola
Estadual de Ensino Fundamental Pedro Targino, e apresentamos os achados da
pesquisa na direção de compreender as causas e consequências e impacto desta problemática
no fenômeno da evasão escolar.
2 ELO CONCEITUAL: VIOLÊNCIA NA ESCOLA, GÊNERO E
HOMOFOBIA
A
violência nas escolas tem sido uma preocupação para a comunidade escolar, pois
esta vem atingindo as instituições de ensino de diversas formas sejam quanto ao
ensino e aprendizagem sejam nas relações interpessoais, além disso, toda
comunidade escolar é atingida, destruindo muitas vezes a real finalidade da
escola. Para compreender o fenômeno da violência na escola e link com relações
de gênero e homofobia iremos traça notas conceituais sobre gênero, homofobia e
violência na escola.
As
relações entre homens e mulheres tem sido uma forma de padronização e
constituição da sociedade, em suas relações nos diversos ambientes sociais,
estes por sua vez têm gerado conflitos e desigualdades, como afirma Joan Scott
(1995, p. 21), “gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseado
nas diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é uma forma primeira de
significar as relações de poder”.
A
sociedade partindo destes princípios tem colocado homens e mulheres em lugares
e padrões que não levam em considerações apenas as questões biológicas, mas
constituídas através das relações sociais, segundo Santos e Buarque (2003, p.
1), “o conceito de gênero nos permite compreender que as desigualdades
econômicas, políticas e sociais existentes entre homens e mulheres não são,
simplesmente, produtos de diferenças biológicas”.
Portanto,
a escola como instituição social não seria diferente, estas formas e padrões
constituídos e formalizados em sociedade que diverge homens e mulheres, além de
outros gêneros, são reproduzidas nas escolas de diversas formas gerando
diferenças, distinções e desigualdade, conforme Louro (1997):
Tal
“naturalidade” tão fortemente construída talvez nos impeça de notar que, no
interior das atuais escolas, onde convivem meninos e meninas, rapazes e moças,
eles e elas se movimentem, circulem e se agrupem de formas distintas.
Observamos, então, que eles parecem “precisar” de mais espaço do que elas,
parecem preferir “naturalmente” as atividades ao ar livre. Registramos a
tendência nos meninos de “invadir” os espaços das meninas, de interromper suas
brincadeiras. E, usualmente, consideramos tudo isso de algum modo inscrito na
“ordem das coisas” (...) Mas as divisões de raça, classe, etnia, sexualidade e
gênero estão, sem dúvida, implicadas nessas construções e é somente na história
dessas divisões que podemos encontrar uma explicação para a lógica que as regem
(LOURO, 1997, p.60).
Deparamo-nos
diariamente com situações padronizadas pela sociedade que modelam homens e mulheres
e como estes devem agir, mas na verdade isto nada tem haver com as diferenças
naturais e biológicas, são meros conceitos que hierarquizam um gênero e
menospreza o outro, em outras palavras, tornam o masculino superior aos demais
gêneros identificados em nossa sociedade atual.
Com
estas características supracitadas do conceito e padronização de gênero, há uma
valorização de um determinado grupo e a desvalorização de outros, gerando
muitas vezes o preconceito e a discriminação entre estes grupos, além de
diversas formas de violência. Por ser um lugar ao qual estão reunidas diversas
pessoas e consequentemente diversos gêneros, a escola tem sido um ambiente
comum a atos de violência de gênero.
Diante está naturalidade a escola tem reproduzido cada
vez mais a diferença de gênero, assim é necessário que os profissionais da
educação estejam atentos na busca de coibir as praticas de desigualdade para
que o indivíduo não sofra qualquer tipo de discriminação devido seu estilo de
vestir-se, falar e etc. Ressalta-se ainda a necessidade do individuo aprender
conviver com as diferenças respeitando o próximo e não o ignorando e o
desrespeitando nem muito menos o colocando em situações que pareçam normais,
mas que na verdade só geram preconceito e discriminação.
Segundo
os autores Campos (2009) e AUAD (2006), a escola é um ambiente social que sofre
o processo de socialização de gênero, é nela que o individuo aprende códigos
símbolos construídos socialmente que distinguem homens e mulheres, este fato
tem despertado profissionais da educação e pesquisadores (AMORIN 2009), no qual
através destes estudos tem comprovado diversos tipos de violência
principalmente quanto à diversidade de gênero no ambiente escolar.
A
escola como espaço de aprendizagem e interação, tem como parâmetro curricular a
educação sexual, mas segundo alguns autores como, Ribeiro, Souza e Souza
(2004), têm destacado que estes parâmetros têm sido considerados competência
apenas dos professores de ciências ou educação física. Neste caso muitas vezes
o conhecimento prévio do discente e o conhecimento de mundo ao qual este está
inserido não são levados em consideração, sendo apenas o tema explanado de
forma científica falando apenas com uma abordagem biológica.
Quando
ocorre uma aula na qual o professor fala apenas dos aspectos biológicos, já
caracteriza uma exclusão de gênero, pois há uma relação apenas entre masculino
e feminino, deixando muitas vezes jovens constrangidos com a situação por não
se classificar em nenhuma característica cientifica ou biológica durante aquela
aula.
A
sociedade é detentora de uma forte resistência as mudanças dos padrões quanto à
sexualidade, à escola também inserida neste espaço social tem mantido os mesmos
padrões sociais, nas palavras de (FOUCAULT, 1988; BUTLER, 1999; WEEKS, 1999):
Nesse
processo, firmou-se um saber sobre a sexualidade em que qualquer expressão da
sexualidade que fuja aos padrões heterossexuais e “naturais” é considerada
anormal. (FOUCAULT, 1988; BUTLER, 1999; WEEKS, 1999).
As
questões de sexualidade têm entrado em conflito com diversas regras morais e
éticas da sociedade, (FOUCAULT, 1998), afirma que a sexualidade tem se
relacionado com o controle do corpo e da vida das pessoas. Portanto existe na
sociedade uma divisão de poder no qual o sexo é levado em consideração, dando
força a um e menosprezando outros, na escola isto não é diferente, há um
domínio da heteronormatividade como em toda sociedade, aos quais muitos outros
gêneros são considerados anormais ou inferiores, (BUTLER, 1999), afirma que a
escola tem desenvolvido um trabalho contraditório, pois esta deveria ser um
espaço no qual o os indivíduos tivessem a liberdade de questionar a lógica
sexual e de gênero.
Na
escola o individuo deveria ter a liberdade para construir sua identidade, mas
na realidade as pessoas têm sofrido vários tipos de violências devido sua
orientação sexual, além disso, a diversidade sexual na escola muitas vezes nem
é citada, neste caso o ambiente que deveria formar o verdadeiro cidadão tem
atuado de forma mecânica e engessada seguindo os padrões arcaicos ao qual não
se valoriza a pessoa e sim suas características físicas, biológicas e posição
social.
A
sociedade tem imposto em seus conceitos os padrões que definem homens e
mulheres, sendo neste levado em consideração os aspectos biológicos como forma
de padronização conhecido como gênero masculino e feminino, além disso, a
cultura tem definido como deve ser o homem e como deve ser a mulher e ainda sua
forma de agir e pensar.
No
entanto, vale ressaltar que homens e mulheres são produtos da realidade social
e não definidas apenas pelo sexo biológico e suas características físicas,
sendo assim, o conceito de gênero tem sido modificado ao longo da historia,
tendo seu surgimento através dos movimentos feminista e seu ápice aconteceu
através do movimento homossexual e da produção de identidades coletivas.
Diante
tantas transformações quanto ao conceito de gênero, varias mudanças tem surgido
na sociedade que tem se manifestado de diversas formas, mas isto não deveria
classificar as pessoas, pois gera a discriminação e o preconceito, além de não
respeitar as diferentes possibilidades da sexualidade.
As
manifestações homossexuais têm sofrido as consequências devidas estas mudanças,
são ofensas, humilhações, ameaças e inclusive agressões físicas e psicológicas,
este tipo de repúdio é conhecido como homofobia. A homofobia conhecida como um
preconceito anti-homossexual, são percepções negativas a respeito da
homossexualidade, se manifesta através da reprovação de pessoas que não se
adéquam a padrões estabelecidos pela sociedade.
A
escola como instituição social tem reproduzido cada vez mais os casos de
homofobia, segundo, AMORIM, 2009, a violência na escola tem sido destaque na
mídia mundial, segundo Rogério Junqueira (2007), o Brasil tem o maior numero de
assassinatos contra os homossexuais. Neste sentido a escola brasileira tem
reproduzido as influencias sociais, as quais tratam os homossexuais de forma
discriminatória e preconceituosa manifestadas de diversas formas e atitudes, as
escolas brasileiras tem se preocupado com esta situação e parte em busca de
capacitar seus profissionais que em muitos casos se sentem de mãos atadas sem
saber o que fazer ou que decisão tomar.
O
preconceito parte do principio da não aceitação de alguns atos, atitudes e até
mesmo das pessoas, na escola este fato tem sido um gerador de discriminação e
violência, estando estes relacionados na maioria dos casos com as relações de
gênero. A escola como reprodutora da
cultura ao qual está inserida, sofre com a naturalização da violência, segundo
Candau (2001) isso tem gerado a banalização da violência que gera o medo, a
desconfiança, a competitividade, a insegurança e a representação do outro como
inimigo.
Segundo
Rogério Junqueira (2007), o país é o campeão mundial de assassinatos contra
aqueles considerados das sexualidades não-hegemônicas, já que a média
brasileira é de um assassinato a cada três dias. A escola age como reprodutora
da cultura local, esta por sua vez tem sido um ambiente no qual a violência de
gênero também tem acontecido diariamente.
São
constantes os casos de discriminação contra os LGBTs no ambiente escolar,
caracterizando estes atos como homofobia que de acordo com Borrillo (2001, p.
13), é a atitude hostil que tem como foco homossexualidade, homens ou mulheres
e consiste em designar o outro como inferior, contrário ou anormal, de modo que
sua diferença o coloca fora do universo comum dos humanos.
A
homofobia tem sido uma das formas de preconceito que mais tem se destacado na
sociedade moderna, pois esta tem sido expressa facilmente pelas pessoas sem
nenhum constrangimento ou preocupação com as possíveis consequências de atos e
atitudes que não levam em consideração a pessoa. O mais interessante disso
tudo, é que quando se trata de outros tipos de preconceito há todo um receio e
uma preocupação, mostrando o quão preocupante é esta situação que vem
acontecendo com os homossexuais em diversas esferas da nossa sociedade.
Na
escola não seria diferente, a homofobia se manifesta de diversas formas, sejam
elas físicas ou verbais e isto tem ocasionado diversas consequências
principalmente aos jovens gays e lésbicas como: tentativas de suicídio e a
evasão escolar, estes se destacam mais entre as vitimas de violência na escola
por estarem mais visíveis.
Muitos
jovens permanecem em silêncio, ou seja, tentam esconder sua orientação sexual,
neste caso existe o medo de ser recriminado e rejeitado pala sociedade
inclusive no ambiente escolar, sendo assim não deixando esse fato de ser uma
forma de violência, pois as vitimas deste tipo de violência são reprimidas e
impossibilitadas de viverem como pessoas livres com seus direitos e deveres. Os
casos de omissões no ambiente escolar também fazem com que estes jovens fiquem
invisíveis, pois muitos profissionais da educação preferem não falar sobre o
assunto.
Ao não falar a
respeito deles e delas, talvez se pretenda ´eliminá-los`, ou, pelo menos, se
pretenda evitar que os alunos e as alunas´ normais` os/as conheçam e possam
desejá-los/as. Aqui, o silenciamento – a ausência da fala – aparece como uma
espécie de garantia da ´norma`. (LOURO, 1997, p. 67-68).
Aparentemente as pessoas preferem ficar em silêncio, é
como se o assunto fosse proibido e o pior desta situação é que estes se omitem
inclusive quando presenciam situações homofóbicas. A dificuldade para os
adolescentes assumirem a sua condição de homossexual tem se tornado cada vez
mais difícil, pois a sociedade já tem sua opinião pré-formalizada e inclusive
já cria suposições quanto ao que é normal e o que é anormal, segundo Louro
(2000);
A escola é,
sem dúvida, um dos espaços mais difíceis para que alguém“ assuma” sua condição
de homossexual ou bissexual. Com a suposição de que só pode haver um tipo de
desejo sexual e que esse tipo – inato a todos – deve ter como alvo um indivíduo
do sexo oposto, a escola nega e ignora a homossexualidade (provavelmente nega
porque ignora) e, desta forma, oferece poucas oportunidades para que
adolescentes ou adultos assumam, sem culpa ou vergonha, seus desejos. O lugar
do conhecimento mantém-se, com relação à sexualidade, o lugar do
desconhecimento e da ignorância. (LOURO, 2000, p. 30).
Falar sobre sexualidade na escola tem sido um tabu,
pois estes temas são considerados desnecessários por muitos professores
deixando nossos jovens constrangidos e presos ao medo de expressar seus desejos
e vontades, oprimidos pela escola que deveria lhe dá oportunidades de ser um
cidadão crítico e consciente e pela sociedade que não lhe dar espaço de viver
sua própria vida como todo cidadão.
3 RETRATOS REVELADOS NA PESQUISA FEITA NO PROJOVEM
URBANO DA ESCOLA ESTADUAL DE ENSINO FUNDAMENTAL PEDRO TARGINO
O Projovem Urbano
é uma modalidade do Programa Nacional de Inclusão de Jovem (PROJOVEM), é
programa vinculado ao Ministério da Educação (MEC) ligado ao governo federal,
que é desenvolvido em parceria com os governos estaduais e municipais,
direcionado ao jovens de 18 e 29 ano que não concluíram o Ensino Fundamental
II, no qual visa a conclusão desta etapa através da modalidade de Ensino da
Educação de Jovens e Adultos (EJA). O programa oferece conteúdos nas áreas
Linguagem (Portuguesa e Inglesa), Ciências (Humanas e Naturais), códigos
(Matemática), integram-se ainda ao programa a qualificação profissional, o
desenvolvimento de ações comunitárias e o exercício da cidadania. Os
participantes do programa recebem uma bolsa de incentivo ao aluno no valor de R$
100 reais.
Na
realidade da cidade de Tacima/PB, os discentes do Projovem urbano, são jovens
que por algum motivo abandonaram a escola, presume-se de fato, que são
possíveis vitimas de violência e preconceito na escola, diante destas
possibilidades busca-se neste trabalho através da entrevista, identificar e
relacionar os casos de violência na escola e suas possíveis consequências, além
das causas motivadoras e os possíveis casos de omissão.
O Projovem urbano
teve inicio no dia 01 de junho de 2015, na Escola Estadual de Ensino
Fundamental Pedro Targino, localizada na cidade Tacima no estado da Paraíba,
possui 185 alunos/as matriculados/as divididos em 5 salas de aulas, e funciona
no turno noturno. Muitos destes alunos deixaram de estudar a muito tempo, sendo
assim, uma curiosidade os possíveis motivos que os levaram a abandonar a sala
de aula.
Após alguns dias
de aula a aproximação entre os alunos e demais membros da comunidade escolar
tornam-se inevitáveis, portanto esta aproximação possibilitou conhecer alguns
motivos pelos quais os alunos abandonaram a escola, muitos foram vitimas de
preconceito e violência tanto psicológica como física.
Partindo destes
principio surge a possibilidade de pesquisar como esta violência ocorreu e
ainda acontece nesta escola, para isto se utilizou técnicas de observação,
entrevistas e questionário. Nestes questionários os alunos e professores
expressaram suas opiniões e percepções quanto ao preconceito, a homofobia e a
violência de gênero no ambiente escolar e como elas acontecem e quais suas
possíveis causas e consequências.
A pesquisa foi realizada no
Projovem Urbano da Escola Estadual de Ensino Fundamental Pedro Targino,
localizada no município de Tacima no estado da Paraíba. Durantes os meses de
junho, julho e agosto/2015, com a participação de 30 discentes, sendo 15 jovens
do sexo masculino e 15 jovens do sexo feminino. Os discentes foram convidados
por fazerem parte de uma comunidade escolar detentora de uma grande diversidade
de gêneros, além destes se encaixarem no perfil da pesquisa, estes ainda fazem
parte de um grupo que por algum motivo deixou a escola e está tentando
recuperar o tempo perdido, neste último caso, muitos inclusive alegam aos
professores que foram vitimas de diversas formas de violência na escola.
A metodologia adotada foi a utilização
da entrevista semi-estruturada, pois optamos neste método por facilitar a
liberdade dos discentes falar da temática à vontade, isto através de um roteiro
dinâmico para que os entrevistados pudessem contribuir de forma espontânea e
natural.
Um
fato alarmante mostrou-se neste estudo, onde a grande maioria dos entrevistados
afirmaram que deixaram a escola por que foram vítimas de preconceito, o
principal deles foi a homofobia. Esse dado é confirmado nos estudos de Dinis,
N. F., 2011; Mac na Ghaill, et. al, 1991; Mac na Ghaill,1991.
Para
Aquino, 1997; Epstein e Johnson, 2000 a escola é um ambiente que reflete a
sociedade. Se a violência faz parte do convívio dos alunos, eles certamente
levarão a violência para a escola, porém de um modo diferente, reinventado.
A
escola é vista como um importante espaço para o combate contra o crime da
homofobia com a implementação de políticas públicas que promovam a saúde de
crianças e adolescentes, e a intenção de introduzir a sexualidade na escola
fica evidente com a inserção da orientação sexual nos Parâmetros Curriculares
Nacionais – PCNs (BRASIL, 1998), na forma de tema transversal (ALTMANN, 2001;
2003).
As
meninas se mostram mais passivas na escola porque já chegam assim na escola,
enquanto os meninos se tornam agressivos no ambiente escolar porque já foi
ensinado pela família a ser assim CARVALHO (2003).
A
entrevista foi composta por 10 perguntas, esta foi realizada com 30 alunos
sendo 15 mulheres e 15 homens todos residentes no município de Tacima/PB.
Quando
perguntado se os alunos são preconceituosos 36,7 afirmaram que sim, se
consideram uma pessoa preconceituosa, 43,3% afirmaram que não se consideram
preconceituosas e 20% afirmaram que algumas vezes e em alguns casos se
considera preconceituosa. Na sequencia foram questionados para saber se existia
homossexuais em suas famílias, 90% disseram que tem sim, enquanto apenas 10%
afirmaram que não.
A
pesquisa também abordou sobre como era a relação dos alunos com os gays na
escola e na família. Eles responderam da seguinte maneira, 46,7% afirmaram não
gosta dos gays, 23,3% disseram não ter problema, mas desde que estes fiquem
entre eles e 30% responderam não ter problema algum. Também foi feito um
questionamento para saber a opinião sobre o casamento gay e as relações
conjugais ente os homossexuais como: namoro e paquera. 50% dos alunos disseram
que isso é uma falta de vergonha, 23,3% não concorda nem com o casamento nem
com qualquer outra forma de relacionamento e 26,7% responderam não ter problema
e deixa as pessoas serem felizes.
Os
alunos também foram entrevistados sobre como se sentem ao estarem próximos de
um gay, 53,3 % responderam se incomodam e preferem sair de perto ou sentar em
outro lugar, 20% disseram que evitam falar com eles e 26,7 diz que não tem
problema algum. Dando sequência a entrevista, foi perguntado aos alunos se
estes já foram vitimas de preconceito ou discriminação, 60% responderam que sim
e 40% disseram que não.
Os
entrevistados foram questionados sobre qual seria a reação ao ver um gay ser
agredido verbalmente ou fisicamente, 33,3% afirmaram ficar na deles, pois
declaram não ser problema deles, 33,3% acham desnecessária tal situação, 13,4%
dizem que sairiam de perto e 20% afirmam que ficam indignados diante uma
situação como esta. Na entrevista os alunos também foram interpelados se estes
se consideram pessoas homofóbicas, após uma breve explicação sobre homofobia,
43,3% responderam que sim, 26,7% que não e 30% alegaram depender da situação e
do momento.
Durante
a entrevista ainda foi perguntado se os gays sofriam preconceito na escola, e o
porquê deste preconceito, os alunos responderam de forma unânime que sim, “os
gays sofrem preconceito na escola”, mas não souberam responder por que isto
acontecia. Na última pergunta os entrevistados responderam sobre como a escola,
os funcionários e o corpo docente têm acolhido os homossexuais, 36,7%
responderam que a escola recebe bem os homossexuais, 30% afirmaram que a escola
já dá liberdade demais aos homossexuais e 33,7% afirmam que os homossexuais
sofrem preconceito inclusive dos funcionários e professores.
Analisando
os resultados da entrevista realizada com os alunos do Projovem Urbano da
Escola Estadual de Ensino Fundamental Pedro Targino, turno noite, observou-se
que existe uma certa rejeição aos homossexuais e que muitas vezes estes são vítimas de preconceito e
discriminação.
Durante as
entrevistas, os entrevistados demonstraram um grande grau de preconceito em
relação a gays na família, pois muitos não aceitam esta orientação sexual, as
mulheres se mostraram mais aberta a esta realidade, mas os homens chamam
inclusive “palavrão” quando toca neste assunto. Outra coisa que chamou atenção
foi como eles mesmos sem conhecerem a bíblia, se utilizam dela como argumento,
se amparando as questões religiosas.
Quanto
ao casamento gay, muitos dos entrevistados afirmam que só se o filho for morar
distante e que nunca traga o “macho” para visitar os pais. Percebe-se muito
preconceito e muitos dos entrevistados demonstram características homofóbicas,
sendo nas mulheres este último de forma mais amena, porém no ambiente escolar o
preconceito de acordo com o relato da maioria dos entrevistados só tem
aumentado, pois são poucos os que respeitam o colega dentro e fora da escola.
A surpresa surgiu quando um
dos entrevistados citou que muitas vezes a discriminação por causa da “opção
sexual” segundo ele, começa pelos próprios professores e funcionários, que riem
quando ele passa e quando ele fala com as pessoas. A escola tem um papel de
combater esta situação e não contribuir. Se têm pessoas que estão colaborando
com esta situação, como conseguiremos combater estes inimigos tão cruéis que
são o preconceito e a discriminação por orientação sexual e outros fatores no
ambiente escolar?
Os entrevistados responderam de
acordo seus conhecimentos prévios e opiniões a todas as perguntas, sendo que um
dos temas da entrevista causou um maior impacto, pois tratava da questão de
filhos gays; a grande maioria se sentiu desconfortável principalmente os
homens, quando interpelado sobre a aceitação de um namorado ou namorada de um
filho gay dormir na residência dos pais muitos não aceitariam de forma alguma.
Portanto, percebe-se nesta
entrevista o quão grande é a dificuldade das famílias aceitarem filhos gays,
mostrando como nossa sociedade insisti nas tradições sociais passadas de
geração a geração, além de mostrar também as dificuldades encontradas por
pessoas de orientações sexuais diferentes das instituídas de forma padronizada
pela sociedade, esta mostra ainda os conflitos em família e as diversas formas
de violência sofridas por estas pessoas que fogem dos padrões sociais.
4 CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Vale destacar que o jovem faz parte da
cultura a qual este está inserido. Sendo assim, este estudo tem demonstrado
como o preconceito e a discriminação contra os homossexuais e de uma forma mais
abrangente todas as orientações sexuais, têm invadido as nossas escolas ao
ponto de muitos alunos preferirem mudar de lugar ao sentar ao lado de um gay ou
fazer de conta que não está presenciando um ato de violência contra este.
Além disso, comprova-se ainda neste estudo,
a necessidade de capacitação dos nossos profissionais da educação em prol de
uma escola democrática que trate todos por igual, ou seja, sem distinção de
classe, etnia e orientação sexual.
Durante a realização deste trabalho percebeu
ainda como os jovens ainda conhecem muito pouco sobre homofobia, muitos praticam
e nem se quer sabe disso, falta orientação, formação e instrução para estes
jovens tão carentes de conhecimento sobre este assunto tão real na sociedade,
se faz necessário uma educação mais humana e mais justa que trate a realidade e
o conteúdo de forma subjetiva, fazendo uma ponte com a realidade e não uma
educação puramente cientifica que trata os seres humanos como uma espécie
pré-programada pelos seus aspectos físicos.
A escola precisa evoluir e se adaptar as
transformações, não que seja uma escola sem regimento, mas que seja capaz de
formar o cidadão sem classificá-lo ou taxá-lo como isto ou aquilo e nem muito
menos que prolifere os maus costumes e os conceitos desumanos que a sociedade
muitas vezes egoísta e hipócrita tem colocado como ético e correto.
REFERÊNCIAS
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PERCEBEM PROFESSORES E PROFESSORAS?. Revista
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Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ensaio/v16n58/a05v1658.pdf>.
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CARVALHO, Maria Eulina Pessoa de.
VIOLÊNCIAS NA ESCOLA: O QUE ISSO TEM A VER COM CIOLÊNCIAS DE GÊNERO?. In:
ANDRADE, Fernando Cézar Bezerra (org.), Escola: faces da violência, faces da
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[1]Professor do
Projovem Urbano do estado da Paraíba. Graduado em Licenciatura Plena da Língua
Portuguesa (UFPB). Graduando em Letras Língua Inglesa (UFPB). E-mail:
jedvaldorn@hotmail.com.
[2]Professor orientador Curso
de Especialização em Gênero e Diversidade na Escola (NIPAM/UFPB). Mestre em
Direitos Humanos, Cidadania e Políticas Públicas/UFPB. Graduado em Serviço
Social/UFPB. Especialista em Gestão Pública Municipal/UFPB e Adolescência e
Juventude no Mundo Contemporâneo/FAJE. E-mail: renildolmoraes@yahoo.com.br.
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